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Minha escola, minha vida !

A criança precisa confiar na escola
Luciene Correia*



“A escola é como uma outra casa para as crianças”, “A
professora é a segunda mãe”. Diversas vezes essas frases são
ditas para expressar a importância que o ambiente escolar tem
na vida da criança.

É o lugar onde as informações são fundamentais para o
processo de aprendizagem. Letras, números e palavras fazem
parte do dia-a-dia de milhares de alunos nas instituições por
todo o país.No entanto, a escola também é responsável por aprimorar a
formação do indivíduo. Cabe à ‘segunda mãe’ não só ‘cumprir o
conteúdo do bimestre’’ – prioridade estabelecida pela
instituição de ensino - mas ficar atenta ao comportamento de
cada um de seus alunos e estar pronta para orientar,
incentivar e ajudá-los a manter e promover o bem-estar das
crianças.Poucos são os profissionais da educação que exercem a
responsabilidade de ‘segunda mãe’. Tanto na rede pública, nas
escolas municipais ou estaduais quanto nas particulares, a
principal preocupação é chegar ao final do ano tendo cumprido
todo o plano do curso.Muitas vezes, a sala tem mais de trinta crianças e não é
possível conhecer a história de cada aluno. Em vários anos a
professora chega em novembro sem nem saber o nome de todas as
crianças da sala. Isso é real, mas não o ideal.É de fundamental importância que o educador conheça seus
alunos. Sendo assim, qualquer problema pode ser facilmente
diagnosticado simplesmente por observar algo de estranho no
comportamento da criança. Por isso, é mais provável que um
caso de violência doméstica seja constatado em crianças do
ensino básico. O professor logo percebe se o aluno está
machucado ou apenas diferente do dia anterior.Todos os profissionais da educação devem ser orientados para
que em caso de suspeita de maus-tratos, a coordenação da
escola seja avisada e os pais convocados para uma conversa
informal sobre possíveis conflitos em casa. Esse contato deve
ser sigiloso e com muito cuidado. Ninguém quer que a criança
seja vítima de novo, quando chegar em casa. É uma situação
muito complicada, mas o que é melhor? Fingir que não percebeu
que um de seus alunos está machucado (física e/ou
psicologicamente) ou tentar mudar a história daquele pequeno
ser?Na maioria das ocasiões, encaminha-se para tratamento com o
psicopedagogo da escola. Essa possibilidade só existe em
algumas escolas particulares. Nas escolas públicas, é
necessário acionar o serviço de saúde do município e aguardar
para avaliação e agendamento. É imprescindível o tato ao
lidar com essa questão. Pode ser uma ocasião não corriqueira.
Talvez até torturas diárias.E não estou falando só de
espancamentos que deixam marcas físicas, Falo também de
palmadas, tapas, chineladas, pequenas ou grandes surras...
Tudo o que provoca dor é violência. A criança não deve ser
educada com dor, mas sim com amor e paciência. Se o educador
não faz nada para defender os pequenos, ele é cúmplice dessa
violência.O que os professores dizem sobre isso? Lamentável, mas a
grande maioria diz não ter a ver com isso, ‘é assunto de
família’, outros dizem que ‘se apanhou, deve ter merecido’,
outros ainda que ‘sou professora e não assistente social.Essas respostas ouvi das próprias professoras numa pesquisa
feita na região metropolitana de São Paulo, no ano passado.
Também ouvi reclamações sobre a resistência à notificação de
algumas diretoras de escolas particulares. Elas temem que o
contato com os pais faça-os tirar os filhos daquela escola.
Nesse caso, o dinheiro da mensalidade é mais importante!
Pude constatar ainda que alguns educadores se recusam a
notificar por conta da ineficiência e ausência de programas
de apoio à família no município. Na verdade, os professores
dizem que fazer a notificação é procurar encrenca. Eles têm
muito medo de represálias. Nunca se sabe o que tem por traz
daquela violência. Por ser qualquer coisa.A notificação, segundo o R.A E. – Roteiro Administrativo da
Educação, é obrigatória quando maus-tratos envolvem crianças
e adolescentes. A lei número 10.498, de 2000, determina no
artigo 1o que órgãos públicos e, professores e responsável
por estabelecimento de ensino fundamental, pré-escola ou
creche notifiquem a violência.
Essa lei reafirma o que dispõe o ECA – Estatuto da Criança e
do Adolescente. O artigo 56 diz que os dirigentes de
estabelecimentos de ensino fundamental devem comunicar ao
Conselho Tutelar os casos de maus-tratos envolvendo seus
alunos.
Quando uma criança é agredida pelos pais ou responsáveis, o
professor ou o inspetor de alunos nota pelo comportamento da
criança. Outras vezes, são os colegas da vítima que percebem,
perguntam o que aconteceu ao amigo e vão contar ao professor. Uma conselheira tutelar de Mauá contou-me um encaminhamento
recebido de uma escola central da cidade. Ela conta que um
garoto de 11 anos se recusava a ir para a aula de educação
física e ao notar a insistência da professora, um colega do
garoto falou o que havia acontecido. O menino tinha sido
agredido pela mãe e estava muito machucado. A mãe havia
batido no filho com fios de elétricos e a surra praticamente
arrancou a pele dos braços do garoto.A orientação tanto da Secretaria quanto da Supervisão de
Ensino é que os educadores tentem resolver os problemas dos
alunos dentro da própria escola, sem envolver, nem acionar
outros órgãos. Quanto mais informal e familiar forem as
conversas entre os profissionais e os pais, melhores serão os
resultados. Dessa forma, os pais podem aceitar mudança de
comportamento para evitar mais situações de conflito.O grande problema é que as escolas da rede pública não têm
entre seus funcionários um psicopedagogo de plantão para
intermediar as conversas e fazer o trabalho de
conscientização dos pais.Em escolas nas quais há esse
profissional, todo e qualquer tipo de problema com os alunos
pode ser encaminhado para esse profissional. Não só questões
de aprendizagem, de comportamento em sala de aula, mas também
as de ordem familiar. Muitas vezes, uma criança que passa por
conflitos em casa e está apenas reproduzindo e expressando
sua indignação ou sofrimento é intitulada ‘ aluno-problema’
por muitos educadores se referindo àquela criança que exige
mais atenção do profissional. O problema pelo qual qualquer
criança passa repercute também na sua escolar e deve ser
tratado para que o seu desenvolvimento seja saudável. Um psicopedagogo tem papel importante de mediador nas
ocasiões em que qualquer problema é constatado ou, pelo
menos, suspeitado. Além disso, ele deve ajudar a circular
informações no ambiente escolar, deve socializar os direitos
e deveres previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente,
otimizar os vínculos escolares por meio de parcerias entre
pais, educadores e direção, promover palestras, encontros e
orientar os educadores sobre os sintomas da criança submetida
aos maus-tratos e seu reflexo no comportamento em sala de
aula. A proximidade proporciona a observação. E, dessa forma, é
possível tomar conhecimento dos segredos que os pais mantém
por trás das muralhas. O medo da denúncia pode diminuir com a
aproximação de um profissional que oferece ajuda. Muitas
vezes, o professor não toma a atitude de notificar porque
vive a situação no próprio lar e não sabe como sair desta
relação tirana, de submissão, ameaçadora, terrorista,
sadomasoquista. Se o professor é ‘bate para educar ‘seus
próprios filhos, o apoio é para os pais e não para o aluno
que sofre e confia nele.Não é difícil perceber quando uma criança foi agredida. Seu
comportamento é diferente. Geralmente a apatia ou
agressividade desenfreada é o primeiro indício.
Quando a criança é questionada sobre a proveniência dos
machucados, geralmente é reticente ou dá desculpas falsas.
Esse comportamento sugere um “mentir” por coação para
encobrir o pai ou a mãe. Labilidade de humor, sono, choro,
depressão, irritação sem motivo aparente, o aluno começar a
contar histórias de maus-tratos de animais, também podem ser
sinais de expressão de sofrimento decorrentes da violência.A violência familiar e a violência social são, com
freqüência, tratados isoladamente. Não somente isso, a
violência familiar não é reconhecida como um problema e, por
conta disso, não é alvo de discussões sérias e nem tampouco
tratada de forma a ser erradicada.As conseqüências das agressões sofridas no lar - se é se pode
chamar assim uma casa onde há violência – requerem custos
econômicos enormes, são despesas com médicos, apoio social e
psicológico, abrigo, entre outros. Mas, o preço da violência
ultrapassa o valor financeiro. Dinheiro não é o empecilho
para que isso seja solucionado. Melhor se fosse. O custo a
ser levado em consideração é o pessoal e o social do
sofrimento das vítimas.Freqüentemente, a sociedade enxerga as agressões que
acontecem dentro da casa do vizinho, por exemplo, como um
problema localizado e, preferem não se interferir. Esse
pensamento é bastante comum, já que não imaginam a ligação
que há entre a violência daquela casa e a que ocorre na
esquina. A agressão cometida num ambiente familiar não é
menos grave, ou não merece tanta atenção das pessoas.Além disso, as pessoas não costumam projetar a educação dada
àquela criança agredida na casa do vizinho na sociedade.
Estudiosos da área acreditam que pessoas que sofreram
violência na infância , quando crescem, reproduzem essa
atitude, tornando-se adultos violentos.

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